Autor: Rafael Peronio Ramos
Intérprete: Paulo Pinheiro
Março de 1989.
O calor do verão vai se despedindo. No Santiago Pompeu, o jovem Fernando entra no quarto na expectativa. Ele tem uma tarefa naquela tarde. Sobre a mesa de cabeceira, reluz o seu grande orgulho: um rádio gravador toca-fitas Sharp, com acabamento cinza e duas caixas de som potentes.
O gaudério Fernando limpa o suor das mãos na bombacha, abre o compartimento do aparelho e insere, com o máximo cuidado, uma fita cassete Basf de noventa minutos, novinha em folha.
Com a ponta do dedo indicador posicionada exatamente sobre o botão vermelho do Record junto com a tecla Play, ele congela. Não se ouve uma mosca no quarto. O jovem ouvinte assíduo sabe que, em instantes, a programação da Rádio Santiago trará o que ele tanto espera.
De repente, o choro da gaita toma conta do ambiente. Pelo alto-falante do Sharp, a voz serena de Luís Antônio Vieira anuncia a abertura do lendário programa “Galpão Nativo”.
O coração do gaudério acelera. O Galpão Nativo não era apenas um programa de rádio; era o santuário da música gaúcha na região. Fiel à sua essência, a Rádio Santiago falava a língua da sua gente. Era o som do galpão, o cheiro do churrasco e o calor do mate transformados em ondas de rádio, unindo a cidade e o campo na mesma identidade nativista.
Luís Antônio Vieira, com sua fidalguia e conhecimento de causa, solta o anúncio que faz o dedo de Fernando afundar o botão do gravador. As duas travas descem e as bobinas da fita cassete começam a girar. No ar, ecoa um lançamento recente da música nativista: o clássico Timbre de Galo, na voz pujante e telúrica do Tronco Missioneiro, Pedro Ortaça.
A voz do pajador missioneiro preenche o quarto. O jovem Fernando fecha os olhos e sorri, arrepia a alma ouvir o ronco do violão, o hino do Rio Grande e o canto que exalta a terra vermelha das Missões. Ele grava cada estrofe como quem guarda um tesouro. Sabe que aquela fita vai rodar nos churrascos de domingo, nas mateadas com os amigos e nas viagens por este Rio Grande.
O programa segue seu rumo e a fita vai registrando a história viva da nossa música. Quando a canção termina, Fernando aperta o Stop com a sensação de dever cumprido. Ele olha para o rádio com absoluta gratidão.
Esse ritual, repetido por tantos jovens e por tantas famílias de Santiago e região, traduz o que nossa emissora sempre representou. A Rádio Santiago nunca foi apenas um transmissor de sons no topo de uma torre. Para Fernando e para os milhares de corações que pulsam neste chão, ela sempre foi a mão que alcança a cultura, o laço que aperta a nossa tradição e a companheira que coloca a trilha sonora nas nossas melhores memórias.
O tempo passou, as fitas cassete viraram saudade. O querido Luís Antônio Vieira deixou sua marca, o mestre Pedro Ortaça toca ao vivo em novos galpões, mas a herança cultural permanece sólida. Nas ondas da Rádio Santiago, o tempo não apaga a identidade: o timbre de galo missioneiro continua cantando forte, provando que a nossa história continua.
RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.

