Rádio Santiago 75 anos

Série “Rádio Santiago – Memórias em Construção” – Episódio 8 – A notícia que a Rádio Santiago não gostaria de dar

Autor: Rafael Peronio Ramos

Intérprete: Paulo Pinheiro

Terça-feira, 05 de maio de 1987.

O tempo está nublado em Santiago. Na Vila Nova, Sandra liga sua máquina de costura Singer. Caprichosamente, ajusta a linha na agulha, ajeita o pedal e começa o seu dia. Enquanto dá forma àquela colcha colorida que aqueceria o inverno de mais uma família santiaguense, a Rádio Santiago, em cima do balcão, é sua fiel companheira.

Eis que na Rádio a programação é suspensa. A Rádio Santiago é obrigada a entregar, à sua comunidade, a notícia que jamais gostaria de comunicar.

Com profundo pesar, a Rádio Santiago comunica o falecimento de seu fundador, Jaime Medeiros Pinto.

O mundo parece desabar.

A máquina de costura de Sandra é desligada imediatamente. Santiago inteira para. As atenções se voltam para aquela onda de choque que, pouco a pouco, se espalha pelas ruas, esquinas e rincões.

A Rádio Santiago, acostumada a ler as notas de falecimento dos filhos da nossa terra e a estender o ombro amigo às famílias enlutadas, agora recolhia a sua própria dor. Era a Rádio Santiago que chorava o seu próprio luto, e era a costureira Sandra, junto a cada ouvinte da região, que estendia as mãos e abraçava a sua rádio no momento mais desafiador de sua história. A voz da comunidade recebia, de volta, o carinho que sempre plantou.

Por obra do destino, Jaime Pinto partiu logo no dia que celebra o avanço e a conexão entre os homens: 5 de maio, o Dia Nacional das Comunicações. Certas coisas não se explicam; aceitam-se. O Patrão lá de cima sabe o que faz.

Muitas coisas a gente gostaria que não tivessem acontecido no nosso tempo, mas não nos cabe decidir o desenho dos dias. Tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.

E Jaime era um homem decidido. No tempo que lhe foi dado por Deus, demonstrou seu enorme poder de comunicação. Radialista brilhante, jornalista de vanguarda, dono de discursos memoráveis e escritor de mão cheia. Foi um dos maiores disseminadores da cultura gaúcha, ajudando a construir o CTG Os Tropeiros e a estabelecer diversas emissoras de rádio pelo estado.

Quando munido pelo violão e acompanhado de parceiros de composição, produziu verdadeiras relíquias. Deixou sua alma eternizada em melodias como “Meu Rancho”, “Fim de Baile”, “Peleia com a Sorte”, “Minuano” e “Campereando”. Mas foi em Santiago do Boqueirão, ao lado de sua prenda mais linda, Ieda Severo Pinto, que o coração bateu mais forte. Entre tantos projetos pelo Rio Grande, a Rádio Santiago foi, sem dúvidas, a menina dos seus olhos.

Jaime foi em paz. Cerrou os olhos sabendo que sua missão terrena estava cumprida com louvor. Partiu tranquilo porque sabia que, na cabine de comando da Rádio, a continuidade estava garantida pela fortaleza da sua amada Ieda Severo Pinto e, junto com ela, aquela que havia entrado na emissora com 16 anos e crescido junto com a emissora: Clara Eda Peronio Ramos, a Dona Eda. Duas mulheres de fibra, duas companheiras inseparáveis que já dominavam cada engrenagem daquela casa, duas guardiãs prontas para manter acesa a chama da comunicação.

O poeta, autor do célebre poema “Testamento”, já havia escrito suas linhas definitivas. Jaime Medeiros Pinto saiu do ar para entrar na eternidade. E as ondas da Rádio Santiago continuavam a pulsar, prontas para escrever as próximas páginas da nossa história.

RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.

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