O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” tem crescido rapidamente nos últimos anos, impulsionado pela busca por resultados imediatos na perda de peso. Inicialmente indicadas para o tratamento do diabetes tipo 2 e, em alguns casos, da obesidade, essas medicações passaram a ser utilizadas também por pessoas sem indicação formal. No Brasil, entre 2025 e o início de 2026, esse avanço se refletiu no aumento expressivo das vendas e importações, movimentando cerca de R$10 bilhões e registrando alta de 88% no uso apenas em 2025, segundo dados de um relatório publicado pelo Itaú BBA . Embora sejam eficazes em situações específicas, esses medicamentos podem provocar efeitos colaterais e representar riscos quando utilizados sem acompanhamento médico adequado.
De acordo com a Dra. Diana Sá, médica e professora da pós-graduação em Endocrinologia da Afya Brasília, o uso exige avaliação individualizada e monitoramento contínuo. “Essas canetas atuam principalmente reduzindo o apetite, retardando o esvaziamento do estômago e aumentando a sensação de saciedade”, explica.
Apesar dos benefícios, os efeitos adversos são relativamente comuns, especialmente no início do tratamento. Entre os principais estão náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dor abdominal, sensação de estufamento, refluxo e azia. “O desconforto gastrointestinal é o efeito colateral mais frequente. Em alguns pacientes, pode ser intenso a ponto de levar à interrupção do uso”, afirma a especialista. Além dos sintomas mais comuns, há riscos menos frequentes, porém mais graves como casos de pancreatite, alterações na vesícula biliar e desidratação decorrente de vômitos persistentes estão entre as possíveis complicações.
Outro ponto de atenção é a perda de massa muscular, especialmente quando o uso da medicação não é acompanhado por orientação nutricional adequada. “Emagrecer não é apenas perder peso na balança. Se o paciente perde músculo e não adota mudanças no estilo de vida, o risco de recuperar o peso depois é alto”, ressalta Dra. Diana.
A especialista também chama atenção para o uso indiscriminado entrepessoas com peso dentro da normalidade ou levemente acima do ideal. “Esses medicamentos têm indicação específica, geralmente para obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades. Utilizá-los sem critério pode trazer mais prejuízos do que benefícios”, alerta. Do ponto de vista da saúde pública, o fenômeno preocupa. A banalização do uso dessas medicações pode gerar não apenas riscos individuais, mas também sobrecarga no sistema de saúde, seja por complicações associadas, seja pelo uso inadequado de tratamentos que deveriam ser direcionados a pacientes com indicação clínica.
Outro aspecto importante é o chamado “efeito rebote”. Segundo a endocrinologista, o ganho de peso após a interrupção não significa falha do medicamento. “A obesidade é uma doença crônica, e os mecanismos biológicos que favorecem o aumento do apetite voltam a atuar quando o tratamento é suspenso. Isso reforça a importância de acompanhamento médico e de estratégias de longo prazo”, explica.
Para a especialista, as canetas podem ser ferramentas úteis, mas nunca devem ser vistas como solução isolada. “Elas podem ajudar, mas precisam estar inseridas em um plano terapêutico estruturado, com mudanças no estilo de vida e acompanhamento contínuo”, conclui.

