Autor: Rafael Peronio Ramos
Intérprete: Paulo Pinheiro
Santiago, 16 de agosto de 1992.
Faltam poucos minutos para o microfone abrir nos estúdios da Rádio Santiago. Num movimento rápido, o Locutor deixa a mesa técnica e corre até a garagem da emissora. Lá, escondido atrás do encanamento, ficava o termômetro responsável por informar a temperatura a toda região.
O mercúrio acusa o frio de agosto. O Locutor confere a marcação, retorna ao estúdio, ajusta o fone e entra no ar no compasso exato do ponteiro. Ao abrir o programa, anuncia a temperatura daquela tarde na Terra dos Poetas.
Sem rodeiros, aciona a Unidade Móvel, informando que o clima ferve nas ruas. A informação, na emissora da comunidade, nunca esperou o tempo passar. O motor de nossa valente Belina cinza roncava forte pelas ruas de paralelepípedo da cidade, indo exatamente onde o fato estava acontecendo.
No aconchego do seu lar, o Seu Ivan lagarteava no pátio dos fundos. Sentado na sua cadeira, com o rádio regulado na frequência da Santiago, ele descascava uma bergamota ponkan, daquelas bem doce, enquanto o sol morno de agosto lhe fazia companhia.
De repente, a transmissão externa entra ao vivo. A Belina havia estacionado na Praça Moisés Viana. O repórter abre o microfone e o som de fundo é um turbilhão de vozes jovens. Estudantes santiaguenses ocupavam o centro da cidade.
Com rostos pintados de verde e amarelo, faixas e cartazes pretos, o movimento dos Caras-Pintadas exigia o impeachment do presidente da República. A recente democracia brasileira enfrentava um dos seus primeiros testes desde o fim do regime militar, mostrando que a jornada não seria fácil.
Na praça, o repórter estende o microfone para ouvir os manifestantes. Quando a voz da estudante ecoa pelo alto-falante do rádio, o coração do pai Ivan falha uma batida. Era a voz da filha, a jovem Joana, falando com firmeza e coragem para toda região. Ela dava voz a um sentimento nacional anticorrupção que, poucas semanas depois, culminaria no afastamento de Fernando Collor de Mello.
O orgulho do Seu Ivan não cabia em si. A lágrima corria livre pelo rosto diante daquele sol ameno de agosto. Naquele instante, com a casca da bergamota na mão, ele compreendeu o tamanho do rádio na vida cotidiana.
A Rádio Santiago integrava tudo: o estúdio que chama, o repórter que corre atrás do fato, a juventude que faz a história acontecer na praça e o rádio que faz o coração de um pai bater mais forte.
Ao longo de 75 anos, incontáveis repórteres guiaram nossas unidades móveis para trazer a notícia em tempo real. Homens e mulheres que foram, e continuam sendo, os olhos e ouvidos da nossa comunidade.
Onde houver uma voz clamando por mudança, um fato alterando o destino da região ou uma história que mereça ser contada, lá estará o nosso repórter. Ao vivo, na hora. A história acontece nas ruas, mas é na Santiago que ela vira memória.
RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.

