Saúde

Novembro deixa as pessoas mais ansiosas? Psicólogo explica como o fim do ano pode afetar a saúde mental

Proximidade das festas, balanço das metas, preocupações financeiras e sobrecarga de compromissos podem intensificar o estresse; especialista orienta como reconhecer os sinais e lidar com a ansiedade.

Foto: Divulgação

Com a chegada de novembro, a proximidade do fim do ano começa a influenciar a rotina de muitas pessoas. Entre o planejamento das festas, as despesas extras, os compromissos profissionais e a expectativa de cumprir metas estabelecidas meses antes, o período pode vir acompanhado de uma sensação de urgência e de aumento da ansiedade. Mas será que novembro, por si só, deixa as pessoas mais ansiosas?

Embora não seja possível afirmar que o mês provoque ansiedade de forma generalizada, pesquisas internacionais identificam variações sazonais em indicadores relacionados à saúde mental. Um estudo publicado na revista científica Epidemiology and Psychiatric Sciences analisou 636.543 episódios de afastamento do trabalho por transtornos mentais na Finlândia, durante aproximadamente 20 anos, e identificou que os afastamentos associados a transtornos de ansiedade atingiram um pico em novembro. Os menores índices foram registrados entre julho e agosto e entre janeiro e fevereiro. Os resultados sugerem uma possível influência de fatores sazonais, mas não permitem concluir que o mês, por si só, cause ansiedade ou que o mesmo padrão se repita no Brasil.

Segundo o Dr. Luiz Felipe Bruno, professor de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a ansiedade é uma reação natural do organismo, que ajuda a antecipar situações, identificar possíveis ameaças e preparar o indivíduo para enfrentá-las. Por isso, sentir preocupação diante de prazos, mudanças e responsabilidades não significa, necessariamente, que exista um problema de saúde mental. “O sinal de alerta aparece quando ela se torna intensa, persistente e começa a prejudicar nosso bem-estar, nossos relacionamentos e nossas atividades cotidianas”, explica.

A pressão pelo encerramento de ciclos

O fim do ano costuma ser associado à ideia de conclusão e renovação. Nesse período, algumas pessoas fazem um balanço das próprias conquistas e comparam os resultados alcançados com os objetivos definidos no início do ano. Quando existe uma diferença entre o que foi planejado e o que se concretizou, podem surgir sentimentos de frustração, culpa e insuficiência.

De acordo com o professor, concentrar a atenção apenas naquilo que não foi realizado pode reforçar sentimentos de fracasso. Por isso, é importante reconhecer as conquistas e considerar as dificuldades enfrentadas ao longo do caminho, lembrando que as expectativas nem sempre correspondem às possibilidades reais. “Vivemos em uma sociedade que valoriza excessivamente a produtividade, mas nosso valor pessoal não pode ser medido apenas por resultados ou conquistas materiais”, ressalta.

A comparação com outras pessoas também pode contribuir para a frustração. Nas redes sociais, publicações que destacam conquistas profissionais, viagens, relacionamentos e realizações pessoais podem alimentar a percepção de que todos estão avançando, enquanto o próprio indivíduo estaria ficando para trás. Para o especialista, o balanço do ano se torna prejudicial quando a vida alheia passa a ser utilizada como medida de sucesso, já que essas plataformas mostram apenas recortes das experiências individuais, sem revelar necessariamente as dificuldades enfrentadas por cada pessoa.

Compromissos, despesas e sobrecarga

Além das questões emocionais, fatores práticos podem aumentar a tensão nesse período. O encerramento de atividades profissionais, as avaliações escolares e acadêmicas, a organização de viagens e confraternizações, além das despesas com presentes e celebrações podem concentrar diferentes responsabilidades em poucas semanas.

Para quem já enfrenta uma rotina intensa, o acúmulo de tarefas pode reduzir o tempo destinado ao descanso e ao lazer. A tentativa de atender a todas as expectativas, próprias e alheias, também pode gerar a sensação de que não há tempo suficiente para dar conta de tudo.

Outro aspecto é que as festas de fim de ano nem sempre representam um período de tranquilidade para todos. Conflitos familiares, dificuldades financeiras, luto, solidão e mudanças recentes na vida podem tornar essa época particularmente delicada.

O professor destaca que essas experiências não afetam todas as pessoas da mesma maneira. “Somos seres biopsicossociais, ou seja, nossas reações são influenciadas por fatores como predisposições genéticas, experiências de vida, recursos disponíveis e influências culturais. Incertezas sobre o futuro e até reencontros familiares marcados por divergências podem gerar angústia, mas cada indivíduo vivencia essas situações de acordo com sua própria história e contexto”, afirma.

Como reconhecer os sinais de ansiedade?

A ansiedade pode se manifestar tanto emocionalmente quanto no corpo. Entre os sinais mais comuns estão: preocupação persistente, irritabilidade, dificuldade para relaxar, sensação de estar constantemente sob pressão e problemas para dormir ou manter a concentração. Algumas pessoas também podem apresentar tensão muscular, aceleração dos batimentos cardíacos e sensação de falta de ar. 

Segundo o Dr. Luiz Felipe, essas manifestações merecem atenção quando se tornam frequentes e começam a comprometer a rotina e a qualidade de vida. A intensidade, a persistência e os impactos dos sintomas são aspectos importantes para identificar quando a ansiedade deixa de ser uma reação pontual e passa a exigir acompanhamento.

Estratégias para atravessar o período com mais equilíbrio

De acordo com o especialista, uma das medidas que podem ajudar é estabelecer prioridades realistas. Em vez de tentar resolver todas as pendências antes da virada do ano, vale identificar o que realmente precisa ser feito, distribuir as tarefas e aceitar que alguns objetivos podem ser retomados posteriormente. O docente também recomenda respeitar os próprios limites, evitar cobranças excessivas e reservar momentos de descanso. Em situações de desconforto, estratégias simples, como a respiração diafragmática e pequenas pausas, podem ajudar. Estabelecer limites em encontros sociais é outra possibilidade, sem que o afastamento se torne a única forma de enfrentamento.

Outra orientação é fazer um balanço do ano considerando não apenas as metas alcançadas, mas também as dificuldades superadas e os avanços conquistados. “Essa reflexão pode ajudar a construir um planejamento mais realista para o próximo ciclo, sem transformar a virada do ano em um prazo para resolver todas as pendências” afirma o neuropsicólogo.

De acordo com o especialista, quando a ansiedade se torna intensa, persistente ou começa a prejudicar a rotina, é importante procurar ajuda profissional. O acompanhamento psicológico, explica o especialista, não tem como objetivo eliminar as emoções, mas compreender seu funcionamento e desenvolver estratégias mais saudáveis para enfrentá-las. “Não é necessário esperar que o sofrimento se torne incapacitante para buscar apoio. Cuidar da saúde mental também significa desenvolver habilidades emocionais e aprender a enfrentar as situações cotidianas com mais equilíbrio”, conclui.

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