Quando as temperaturas despencam, a preocupação imediata com a saúde dos idosos costuma se voltar para as doenças respiratórias, como gripes e pneumonias. No entanto, o inverno esconde perigos muito mais silenciosos e graves para pessoas idosas. O alerta é do professor de Geriatria da Afya Porto Alegre, Dr. Milton Santos, que chama a atenção para o impacto do frio em duas frentes críticas: o maior número de eventos cardiovasculares e o isolamento social causado e fomentado pelas dores crônicas.
O elo entre a dor articular e a saúde mental As queixas de “dor nos ossos” e nas articulações não são mero clichê de inverno. O frio contrai os músculos e tecidos que compõem as articulações, gerando dor que se cronifica. Esse fator, segundo o especialista, gera um efeito cascata que afeta diretamente o comportamento e o emocional do idoso.
“O inverno traz muitos riscos para os idosos relacionados às dores articulares, pois tendemos a ficar mais imóveis nesta época. O frio rigoroso provoca uma redução no calibre dos vasos sanguíneos, fazendo com que menos sangue circule pelo corpo, especialmente nas extremidades e nas articulações. Isso aumenta a sensibilidade e a dor, gerando uma dificuldade real de mobilidade”, explica o Dr. Milton Santos.
Vasoconstrição: o perigo real de infartos e AVCs
Outro risco crítico e pouco conhecido fora dos consultórios é a resposta do sistema circulatório às baixas temperaturas. Para manter o corpo aquecido, o organismo realiza a vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos), o que eleva a pressão arterial e sobrecarrega o coração, tornando o inverno uma época perigosa para a população idosa.
“Essa redução de calibre dos vasos mediada pelo frio não acontece apenas nas articulações; pode ser adjuvante causador de infarto do coração e de AVC (acidente vascular cerebral ) no inverno”, adverte o geriatra. “Com o avançar da idade, é natural que o idoso apresente algum grau de depósito de gordura nas artérias (aterosclerose). Quando somamos isso ao efeito do frio, o qual estreita os vasos sanguíneos, pode ocorrer por obstrução na circulação do coração e do cérebro podem ocorrerna circulação do coração ou cerebral. Por isso, as frequências de infartos e derrames disparam nos meses de inverno.”
Desidratação silenciosa e os efeitos do frio
Minimizar esses riscos também passa pela mesa. No inverno, a sensação de sede, que já é reduzida para pessoas idosas, diminui drasticamente, abrindo margem para uma desidratação silenciosa que potencializa os riscos circulatórios.
“O idoso naturalmente já sente menos sede e tem uma tendência à desidratação relativa, muitas vezes agravada pelo uso de medicamentos como os diuréticos. Se ele toma pouca água, tem aterosclerose e é submetido ao frio rigoroso, os riscos de um evento grave aumentam drasticamente”, pontua o médico.
Como prevenção, o Dr. Milton sugere estratégias práticas e locais: “Precisamos reforçar o consumo de líquidos de forma atrativa, usando água, sucos, chás ou caldos quentes e sopas, que cumprem a função dupla de hidratar e aquecer o corpo. Além disso, as famílias devem garantir que eles usem bastante agasalho, mantenham a higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel para evitar gripes e pneumonias e evitem manter os ambientes totalmente fechados e sem circulação de ar”.
Ele alerta que o impacto vai além do físico: “Nos meses frios, a iluminação é menor, o dia anoitece mais cedo e as pessoas tendem a não querer sair de casa. Esse isolamento social pode afetar negativamente a saúde mental, agravando tanto a função cognitiva quanto a saúde física. É muito comum que idosos isolados e tristes desenvolvam ou piorem quadros de dores crônicas.”

