O avanço no uso de medicamentos como Ozempic (semaglutida), Wegovy, Mounjaro (tirzepatida) e Saxenda (liraglutida) no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 trouxe benefícios clínicos relevantes, mas também ampliou o debate sobre segurança. Diante do aumento das notificações de eventos adversos, incluindo casos de pancreatite aguda, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou o monitoramento desses fármacos no país.
Para o médico especialista em exercício e esporte, Dr. Fernando Hess, pós-doutor em Ciências da Reabilitação e coordenador do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA), o momento exige informação qualificada e responsabilidade na prescrição.“Estamos falando de medicamentos eficazes, com base científica robusta e resultados consistentes na redução de peso e no controle metabólico. Mas não são isentos de riscos. O uso sem critério técnico ou sem acompanhamento adequado pode aumentar a chance de complicações”, afirma o médico.
Pancreatite: o que se sabe até agora
Estudos internacionais e sistemas de farmacovigilância monitoram uma possível associação entre agonistas do receptor de GLP-1 e pancreatite aguda. Até o momento, a relação causal direta não está definitivamente estabelecida, mas os casos relatados justificam vigilância contínua. Segundo Hess, o risco tende a ser maior em pacientes com fatores predisponentes, como histórico prévio de pancreatite, presença de cálculos biliares, hipertrigliceridemia e consumo excessivo de álcool.
“É fundamental avaliar o perfil clínico antes de prescrever. Obesidade e diabetes já são condições que, por si só, podem aumentar risco pancreático. Por isso, a análise precisa ser individualizada”, explica Hess. Dor abdominal intensa e persistente, especialmente irradiando para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos, deve ser investigada imediatamente. “Nesses casos, o medicamento deve ser suspenso até avaliação médica”, orienta.
Erros de uso estão entre os principais fatores de complicação
Na prática clínica, Hess observa que muitos efeitos adversos decorrem de falhas na condução do tratamento, sobretudo quando há automedicação ou acompanhamento inadequado. “Não é uma solução estética simples. Trata-se do tratamento de uma doença crônica complexa, que é a obesidade”, reforça o doutor.
Entre os erros mais frequentes estão: progressão acelerada da dose, o aumento deve ser gradual, respeitando o tempo de adaptação fisiológica e pode levar a náuseas intensas, vômitos e desidratação, a interrupção e retomada abrupta – suspender e reiniciar o tratamento na mesma dose anterior pode gerar reações adversas importantes; e o uso sem indicação formal – os medicamentos possuem critérios clínicos definidos, incluindo índice de massa corporal (IMC) e presença de comorbidades.
Interação com outros medicamentos
Um aspecto pouco discutido fora do meio médico é o impacto desses fármacos sobre a absorção de medicamentos orais. Os agonistas de GLP-1 retardam o esvaziamento gástrico, o que pode alterar o tempo e a eficácia de absorção de outras substâncias. “Anticoncepcionais, por exemplo, podem ter sua eficácia reduzida em determinadas fases do tratamento, especialmente no início ou após ajuste de dose. Toda medicação em uso deve ser revisada antes de iniciar as canetas”, alerta Hess.
Alimentação e exercício continuam sendo pilares
Embora promovam redução do apetite, os medicamentos não substituem mudança de estilo de vida. Dietas ricas em gordura saturada, excesso de carboidratos simples e consumo de álcool continuam sendo fatores de risco metabólico. Além disso, a rápida perda de peso pode comprometer massa muscular quando não há estímulo adequado. “A prática regular de exercício físico é indispensável. Ela preserva massa magra, protege metabolismo e melhora os resultados do tratamento”, explica o especialista.
Combate à desinformação
Com a popularização nas redes sociais, também cresceram informações sem respaldo científico — desde supostos danos irreversíveis até alterações anatômicas sem fundamento. “Não há evidência científica que sustente alegações como ‘redução do crânio’ ou outras narrativas alarmistas. Precisamos separar mitos de dados concretos. O debate deve ser técnico e baseado em evidências”, afirma.
Como usar com segurança: médico orienta cinco medidas importantes:
1. Nunca iniciar por conta própria.
2. Realizar avaliação clínica completa antes da prescrição.
3. Respeitar rigorosamente a titulação da dose.
4. Informar ao médico todos os medicamentos em uso.
5. Manter acompanhamento nutricional e prática regular de exercícios.

