Autor: Rafael Peronio Ramos
Intérprete: Paulo Pinheiro
Distrito de Ernesto Alves, final da tarde de quinta-feira, abril de 1983.
Inácio Machado se aprochega, puxa o banco e se acomoda. Na sala de casa, a esposa Eliane já estava postada, esperando o companheiro com aquele bolo de milho quentinho, recém-saído do forno, lareira acesa, e o ouvido nas ondas da Santiago.
De repente, o alto-falante estala e a voz do Locutor anuncia:
- “Atenção, Atenção, meus amigos de Ernesto Alves, José avisa que Gerson foi operado e as tripas foram pelo ônibus”.
O vizinho de Inácio e Eliane quase se enciumava ao ouvir de longe aquela risada boa, sem fim, vinda da casa da família Machado. Inácio e Eliane sabiam que os amigos, José e Gerson, haviam partido naquela manhã rumo “à cidade” para fazer aquele rancho cuiudo do mês.
José e Gerson eram amigos de longa data de Juarez Severo, e os três tinham se cruzado e proseado no caixa da Cooperativa Tritícola naquela manhã. Foi a deixa perfeita para o Locutor Severo lembrar “carinhosamente” dos amigos logo mais.
Já em Ernesto Alves, o casal Machado não perdia por nada no mundo aquela programação das 4 às 5 da tarde da Rádio Santiago. Neste horário, entrava no ar o famoso programa “Paisagens Brasileiras”.
De forma descontraída, tal qual a narrada, Juarez Severo abria o semanal. Dono de piadas e causos inesquecíveis, Severo comandava a linha, tocava gaita e divertia os ouvintes.
Mas o programa não contava apenas com suas histórias. Tão relevante quanto o carisma de Severo, Nilda Severo tocava violão, cantava e encantava as famílias de cada rincão. Era a voz dela que acarinhava o final de tarde dos santiaguenses.
Lá pelas bandas de Ernesto Alves, a rádio continuava ligada. Inácio não se aguentava… afinal, Eliane era uma boleira daquelas. Ele passava a faca na manteiga, pegando o terceiro pedaço do bolo, quando os integrantes do grupo “Os Queras” presentearam a família Machado com a mais pedida, a belíssima canção “Sorriso e Lágrima”.
Para fechar aquele final de tarde, a dupla campeã de audiência brindava os ouvintes com “Santiago Minha Terra Querida”. Com sua arte autêntica, no melhor estilo “quem sabe, faz ao vivo”, Nilda e Severo entregavam mais uma edição do “Paisagens Brasileiras” pelo som da Santiago.
Ali, entre o cheiro do bolo de milho banhado na manteiga, o calor do fogo e a graça da piada que parecia recado, a comunidade relaxava. As distâncias sumiam. A Rádio Santiago não era apenas um aparelho na sala. Era a visita mais aguardada, a música mais querida e o laço invisível que unia “a cidade” e o interior na mesma e sincera gargalhada.
RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.
