Para muitos pais, a sensação de que o filho “vive doente” é recorrente: em uma semana é coriza, na outra vem tosse, depois febre, dor de garganta ou otite. Entre crianças que frequentam escola ou creche, a sequência de infecções pode parecer interminável. Mas adoecer com frequência é sempre sinal de que há algum problema com a saúde ou com a imunidade?
De acordo com a pediatra Mariana Bolonhezi, é preciso observar o contexto antes de transformar a frequência das doenças em motivo de preocupação. Nos primeiros anos de vida, e especialmente na convivência em ambientes coletivos, é esperado que a criança tenha contato frequente com vírus e desenvolva diferentes infecções ao longo do ano.
“É muito comum os pais terem a impressão de que a criança acabou de melhorar e já ficou doente de novo. Muitas vezes, não é a mesma doença que voltou, mas uma nova infecção viral adquirida pouco tempo depois. O sistema imunológico está em fase de aprendizado, e a criança está sendo exposta a microrganismos com os quais ainda não teve contato”, explica Mariana.
Quando uma doença termina e outra começa?
Um dos principais desafios para os pais é diferenciar uma nova infecção de uma doença que ainda não se resolveu por completo. Tosse e coriza, por exemplo, podem persistir por dias ou até semanas após uma infecção respiratória, mesmo quando a criança já está se recuperando.
“Nem todo sintoma que permanece significa que a criança adoeceu de novo. A tosse pode durar mais do que a febre, por exemplo. Por isso, é importante observar a evolução do quadro como um todo, e não apenas a presença de um sintoma isolado”, orienta a pediatra.
A frequência das infecções também precisa ser analisada levando em conta a idade da criança, o ambiente em que ela vive, se frequenta escola ou creche, se tem irmãos em idade escolar e o intervalo entre um episódio e outro.
Quando é preciso investigar?
Embora infecções de repetição façam parte da infância, alguns sinais merecem avaliação mais cuidadosa do pediatra: quadros muito graves ou prolongados, infecções que exigem internação, necessidade frequente de antibióticos, dificuldade para ganhar peso ou crescer, pneumonias de repetição e infecções por microrganismos pouco comuns.
“O número de episódios, sozinho, não conta toda a história. O que importa é entender como essas infecções acontecem, qual é a gravidade, como a criança se recupera e como está o desenvolvimento dela entre um episódio e outro”, explica Mariana.
Esse olhar mais amplo também ajuda a evitar um erro comum: concluir automaticamente que uma criança que adoece com frequência tem algum problema de imunidade.
Nem tudo é imunidade baixa
Alergias respiratórias e asma, por exemplo, podem provocar sintomas que se confundem com novas infecções. Coriza, tosse recorrente, chiado e congestão nasal podem ter diferentes causas e precisam ser avaliados dentro do histórico da criança.
“Uma criança que está sempre com o nariz entupido, tosse ou secreção não está necessariamente tendo uma nova virose a cada vez. Algumas condições alérgicas ou respiratórias provocam sintomas persistentes ou recorrentes e precisam ser diferenciadas das infecções”, afirma a pediatra.
Por isso, antes de recorrer por conta própria a vitaminas, suplementos ou medicamentos para “aumentar a imunidade”, o ideal é investigar a causa da recorrência. Alimentação adequada, sono de qualidade, vacinação em dia, atividade física e acompanhamento pediátrico regular continuam sendo os pilares da saúde infantil.
O que os pais devem observar?
Para Mariana, mais importante do que contar quantas vezes a criança ficou doente é observar como ela fica entre os episódios.
“Se a criança se recupera bem e volta a brincar, comer, dormir e se desenvolver normalmente entre as infecções, isso é um ótimo sinal. Já quando ela nunca se recupera por completo, apresenta quadros muito intensos ou a doença começa a afetar o crescimento e a rotina, vale conversar com o pediatra”, explica.
A orientação, portanto, não é ignorar a frequência das doenças, mas evitar tanto a preocupação excessiva quanto a banalização dos sintomas. Só a avaliação individual permite entender quando uma sequência de viroses faz parte da infância e quando é sinal de que algo precisa ser investigado.
