Quem nunca sentiu o estômago embrulhar diante de uma situação de ansiedade ou percebeu o intestino mudar em períodos de estresse? A relação entre o sistema nervoso e o aparelho digestivo é mais próxima do que parece e funciona nos dois sentidos: alterações emocionais podem interferir na digestão, assim como problemas digestivos podem repercutir no bem-estar emocional.
De acordo com o gastroenterologista da Unimed Araxá, Dr. Lincoln Porfírio Ferreira Filho, essa comunicação acontece por meio de uma complexa ligação entre o cérebro e o aparelho digestivo. “O eixo cérebro-aparelho digestivo é bem conhecido, devido à complexa ligação entre os dois órgãos, sendo de carácter bidirecional”, explica.
O estresse, por exemplo, pode alterar o funcionamento do aparelho digestivo. Nesses momentos, o organismo entra em um estado de resposta de “fuga ou luta”, direcionando fluxo sanguíneo e energia para os músculos e o cérebro e reduzindo funções digestivas que não são consideradas fundamentais naquele momento.
Essa alteração pode provocar mudanças no funcionamento intestinal, levando a distensão, desconforto, cólicas, diarreia ou intestino preso. Também podem aparecer refluxo gastroesofágico, empachamento e indigestão. Em algumas situações, a própria percepção dos movimentos do aparelho digestivo fica mais intensa, aumentando a sensação de cólica e desconforto.
“O estresse e a ansiedade podem causar alterações na motilidade intestinal”, afirma Dr. Lincoln. Segundo ele, sintomas neurológicos também podem reduzir a produção do muco que protege o aparelho digestivo, favorecendo sensações como queimação, azia, dor e refluxo, pela maior produção de acidez estomacal.
A relação também pode acontecer ao contrário
A ligação entre os dois sistemas não funciona apenas do cérebro para o aparelho digestivo. Alterações digestivas também podem influenciar o sistema nervoso e contribuir para manifestações como angústia, depressão e transtornos de ansiedade.
O médico explica que os estudos sobre a flora intestinal vêm mostrando, há cerca de três décadas, uma relação cada vez mais importante entre as bactérias presentes no intestino e diferentes condições digestivas. Em situações de estresse, angústia e ansiedade, podem ocorrer alterações nessa composição, além de mudanças nos gases digestivos, na parede intestinal e na produção de hormônios neurológicos.
“Desta forma, ocorre um mecanismo de direção dupla: eixo cérebro-intestinal, onde um influencia o outro, e vice-versa”, diz o gastroenterologista.
Nem todo sintoma digestivo é causado pelo estresse
Apesar dessa relação, Dr. Lincoln alerta que sintomas digestivos não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade ou ao estresse. A avaliação adequada é necessária porque manifestações semelhantes também podem estar relacionadas a doenças que precisam de investigação e tratamento.
Entre os problemas que devem ser cuidadosamente avaliados estão úlceras, gastrites, doença do refluxo gastroesofágico, câncer digestivo, doenças relacionadas à absorção e intolerâncias alimentares.
Alguns sinais exigem atenção especial, como sangramentos, perda de peso inexplicada, dores persistentes e sintomas que aparecem durante o sono. Fatores genéticos também devem ser considerados na avaliação.
Para o médico, ouvir um profissional da área é importante para diferenciar sintomas relacionados ao estresse e à ansiedade daqueles provocados por alterações na estrutura do aparelho digestivo. “A saúde digestiva depende da saúde mental, e vice-versa”, resume.