Rádio Santiago 75 anos

Série “Rádio Santiago – Memórias em Construção” – Episódio 19 – Os olhos da consciência

Autor: Rafael Peronio Ramos

Intérprete: Paulo Pinheiro

Santiago, terça-feira, 8 de agosto de 2006.

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O dia mal havia clareado e os corredores da Rádio Santiago já assistiam aos passos de Jones Diniz. O radialista trazia consigo o peso da responsabilidade e o zelo de quem compreende o valor dos fatos.

Vestindo o seu elegante suspensório e com a tradicional cruz de Cristo lhe acompanhando no peito, o abençoado comunicador organiza os papéis na mesa.  Pontualmente às 8h10, com o profissionalismo que a região passou a reverenciar, ele abre o microfone. Está no ar o Olho Vivo.

No bairro Irmã Dulce, a rotina de mais uma manhã começava para Carolina.  Enquanto colocava o feijão de molho e preparava-se para sovar a massa do pão que alimentaria a casa durante a semana, suas mãos trabalhavam em sintonia com o rádio. Ela não se descuidava da sua companheira. Como milhares de santiaguenses, Carolina aguardava aquela voz sóbria para saber das últimas ocorrências da região.

A magnitude do Olho Vivo refletia em sua altíssima audiência. Ao vivo, Jones Diniz costurava os fatos, trazendo os relatos da Delegacia de Polícia, os registros da Brigada Militar, o monitoramento constante das Polícias Rodoviárias, o alerta sempre pronto do Corpo de Bombeiros, os boletins da Defesa Civil e a movimentação no Hospital de Caridade e Pronto-Atendimento. Ali, o município se enxergava por inteiro.

Após o giro local, a voz sempre ponderada de Jones Diniz trouxe a grande manchete nacional vinda diretamente de Brasília. No dia anterior, 7 de agosto, havia sido promulgada e sancionada a Lei Maria da Penha.

O Brasil mudava a sua legislação de patamar. A agressão doméstica contra a mulher deixava de ser tratada como um crime de menor potencial ofensivo. A nova lei endurecia as penas, permitia a prisão preventiva do agressor e instituía uma série de medidas protetivas de urgência.

Ao ouvir os detalhes daquela lei tão necessária, explicados por um especialista no Olho Vivo, Carolina parou com as mãos na massa. Uma lucidez tomou conta da cozinha. Ela compreendeu que o sofrimento silencioso de sua amiga Laís, dentro de casa, também era violência. O constrangimento, a humilhação e a dor emocional que a amiga carregava estavam, finalmente, protegidos por lei. O rádio rompia o isolamento e acendia uma luz de esperança.

Enquanto o feijão ia para o chiado da panela de pressão, o apresentador atualizava o movimento das estradas e trazia a previsão do tempo, alertando que os efeitos do El Niño se estenderiam até o início de 2007, alterando o regime das chuvas na região sul. Entre um tempero e outro acrescentado na panela, mais uma edição histórica do programa se encerrava com o compromisso jornalístico de sempre.

Duas décadas se passaram desde aquela manhã de agosto. Ao completarmos os 20 anos da Lei Maria da Penha, o Olho Vivo ultrapassou a marca lendária de 6.500 edições, mantendo-se firme como o escudo informativo da nossa gente.

Como o Olho Vivo retratou neste junho e julho de 2026, os desafios referentes à violência doméstica contra a mulher ainda são enormes e a vigilância precisa ser diária, mas colhemos os frutos do que foi plantado lá atrás.

Se hoje nosso município se orgulha de contar com o atendimento especializado de uma Delegacia da Mulher – a nossa DEAM -, sabemos que essa rede de proteção começou no esclarecimento levado a cada lar. Hoje, com um contingente maior de policiais mulheres, o atendimento tornou-se mais célere e humanizado na coleta das provas, permitindo que Santiago registre uma média de 60 atendimentos mensais de amparo às vítimas e celebre a importante marca de 14 anos sem registrar um único caso de feminicídio.

Daquela manhã de 2006 em que Carolina também compreendeu o valor da informação, da prevenção e da justiça social na sua cozinha, até os dias atuais, a Rádio Santiago segue cumprindo tarefas nobres. Através do perfil ético de profissionais, tal qual o Jones Diniz, e da grandiosidade de seus programas, como o Olho Vivo, a emissora segue sendo o farol que informa, que aponta caminhos; e a voz que transforma informação em liberdade.

RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.

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