Autor: Rafael Peronio Ramos
Intérprete: Paulo Pinheiro
Santiago, fevereiro de 2000.
Trinta e quatro graus marcam o calor daquela tarde, mas o que fazia o ar vibrar não era o mormaço de fevereiro. Na sala de casa, reunidos ao redor do rádio, o pai Renato, a mãe Cíntia e os filhos Luciano e Mariana partilhavam de uma expectativa carregada de esperança.
Sintonizados na emissora da comunidade, com o volume a mil, a família aguardava o momento em que a distância entre Santiago e o futuro se reduziria a um sopro de voz.
A Rádio Santiago preparava-se para entrar em cadeia diretamente de Santa Maria, da Sala de Conselhos da Reitoria da Universidade Federal de Santa Maria. O motivo? O tão aguardado Listão dos Aprovados da Coperves.
Para aquela família, cada segundo de espera trazia as lembranças do ano anterior. Um ano inteiro de renúncias, de saudades e do suor de Seu Renato e Dona Cíntia, que não mediam esforços para bancar o filho longe de casa.
Luciano passara o último ano enfrentando a rotina exaustiva do cursinho preparatório Riachuelo, em Santa Maria, acalentando o sonho de conquistar uma vaga na concorrida graduação de Engenharia Elétrica. Foram jantares silenciosos com a cadeira dele vazia, a contagem dos dias para o final de semana, intermináveis esperas na Estação Rodoviária enquanto o olhar cansado não avistava o ônibus da São Pedro se aproximando, e a certeza, a mais absoluta certeza, de que cada centavo economizado era uma semente plantada no destino do guri.
Começa a transmissão ao vivo. A voz do rádio invade a casa com a solenidade de um tribunal. A leitura do listão de aprovados no vestibular se inicia. O coração da mãe dispara; as mãos do pai se entrelaçam. A Rádio Santiago vai desfilando os nomes dos guerreiros, curso por curso: Administração, Ciências Biológicas, Ciências Contábeis, Direito, Economia…A lista avança. Os minutos parecem horas, até que o apresentador anuncia: Engenharia.
O tempo para na sala. Ninguém respira. Ao chegar em Engenharia Elétrica, a leitura segue à risca a ordem alfabética. O homem do listão pronuncia: “Lucas…”. O peito do jovem Luciano esvazia. O próximo nome pode mudar tudo. O mensageiro respira e dita para o Rio Grande: “Luciano…”.
Não foi preciso ouvir o sobrenome. A sala explode. Seu Renato cai de joelhos no chão. Dona Cíntia chora alto abraçada a Luciano, enquanto a irmã Mariana pula, celebrando a conquista do seu heroi.
As lágrimas daquele lar lavam meses, anos de angústia. O esforço é recompensado; a batalha contra a estatística fora vencida. Junto àquele abraço familiar, a voz da Rádio Santiago continuava ali, testemunhando e carimbando a boa nova. A Rádio Santiago unia-se àquele abraço em um dos dias mais felizes da família de Seu Renato e Dona Cíntia.
A história de Luciano e de sua família repetiu-se em centenas de lares da nossa região naquelas tardes de fevereiro, ligando famílias ao futuro pelo fio invisível da radiodifusão.
A Rádio Santiago é aquela amiga que se senta à mesa…Que sofre com a ausência do filho que estuda longe…Que espera junto dentro do carro em frente à Rodoviária…E que aumenta a sua potência para comemorar o sucesso de nossa gente. Somos testemunhas das dificuldades e aquele abraço fraterno na merecida hora da vitória.
RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.
