Autor: Rafael Peronio Ramos
Intérprete: Paulo Pinheiro
Santiago, sexta-feira, 23 de abril de 1999.
Na Rádio Santiago, Dona Eda deixa sua sala, sobe dois degraus e avança à esquerda pelo corredor. Ao chegar na sala de Paulo Bandeira, a fala vem com o afeto de quem cuida: “Bandeira, a Dona Ieda está aguardando o editorial”. Mentes brilhantes, às vezes, precisam de um porto seguro que as lembre do tempo. E ali, naquele gesto cotidiano, havia o zelo…o puro zelo de uma mãe.
Bandeira abre uma página em branco no novo computador que recém havia chegado à redação da Rádio Santiago. Com uma extensão cultural rara, ele pensava fora da curva. Sua mente ágil transitava com a mesma facilidade pela política, economia, história, esporte, educação e cultura. Sua criatividade dava riqueza e profundidade aos editoriais da Rádio Santiago.
Aquele hábito de ler o mundo e devorar livros não era por acaso. Paulo Bandeira herdara o amor pela leitura de sua maior inspiração: sua amada e saudosa mãe, a grande professora Eni Vaucher Bandeira.
Editorial finalizado, era hora de passar pela supervisão rigorosa e maternal de Dona Ieda. Tão habilidosa quanto na época em que ensinava danças tradicionalistas, a professora Dona Ieda também dançava em perfeita harmonia com as palavras. Com seu olhar cirúrgico e a sabedoria de quem conduzia a emissora, ela dava aquele toque final ao editorial.
Na mesa de trabalho, Paulo Bandeira defendia suas ideias com a mesma força e excelência que defendia o gol nas décadas passadas. Seus pensamentos saíam daquela sala de redação para ganhar as ondas da Santiago no dia seguinte.
Sábado ao meio-dia. Na Belizário, o Seu Pedro estende o braço e aumenta o volume do rádio na sala de casa. Ele e tantos ouvintes de Santiago e região esperam ansiosamente por este momento. Quando o Jornal Falado se encaminhava para o fim, eis que surge o tradicional Editorial da Rádio Santiago.
Naquele sábado, mais um editorial primoroso tocava a alma da comunidade e fazia o ouvinte refletir sobre os rumos da sociedade. O Seu Pedro escutava balançando a cabeça, tocado pela erudição que traduzia exatamente o sentimento do nosso povo.
As folhas em branco ganham vida, os computadores trocam de tecnologia, mas a essência da Rádio Santiago permanece profundamente humana. O editorial da Rádio Santiago não era, e não é, somente uma tinta no papel ou uma voz no microfone. É fruto do talento de grandes profissionais – tal qual o Bandeira no passado e tantos outros no presente. Um texto nascido sob o zelo de Dona Eda na lembrança diária, lapidado pelo olhar terno de Dona Ieda e abençoado, como aquele texto foi desde a sua origem, pela inspiradora Dona Eni. Uma estrutura de afeto, cultura e respeito que transforma o editorial da Rádio Santiago no reflexo mais fiel e perspicaz do sentimento de uma Terra de Poetas.
RÁDIO SANTIAGO 75 ANOS – A COMPANHEIRA DA SUA VIDA.
